Editorial
O MAL DA GAVETA
Oficiosamente, porém com base em cálculos sérios, cerca de 25.000 novas Armas de Fogo são comercializadas a cada 30 dias no Brasil. Através da mesma metodologia, intuímos que cerca de 3.000 Armas de Fogo usadas e registradas são igualmente transferidas para outros proprietários. Deve-se notar que este último número é apenas projetado, levando-se em conta a malfadada ideia de ser possível a venda de uma arma usada apenas após decorridos 6 anos de seu último registro.
Ainda este último número possibilita a formação da séria (e preocupante) ideia de que apenas estariam sendo comercializados meros 10% das armas existentes, de vez que a infeliz ideia dos 6 anos inibe a maior parte da população de agir legalmente quando adquire uma arma.
Na América do Norte, quase desnecessário afirmar, não existem tais bobagens com relação às Armas de Fogo. Os índices desses artefatos ainda na ilegalidade são mínimos, absolutamente mínimos. Lá, todos apoiam as leis desta área, justamente porque elas são bem formuladas e lógicas, não inibindo o mais elementar direito humano, a Liberdade.
Assim, as Armas de Fogo são encaradas naquela moderna sociedade como o que são na realidade: ferramentas de Defesa, Esporte ou Lazer e a decorrência disto é também clara e natural. Por isso, é muito frequente ligar-se a TV num fim de semana e um ou mais canais, em seus programas esportivos, transmitirem competições das diversas modalidades do Tiro. Guardadas menores proporções, acontecimentos similares ocorrem na maioria dos países europeus.
Com isto, em sociedades mais maduras do que a nossa, o que ocorre? Sucede que os Esportes do Tiro e a visão das armas tornam-se fatos corriqueiros, possuindo um apoio informativo que possibilita sejam, por si só, itens multiplicadores de sua posição enquanto modalidade esportiva e enquanto artefatos, ou ferramentas, usáveis pela espécie humana para diversos fins.
Ora, dirão os mais conservadores: "Não podemos comparar a realidade de países com modo de vida diferentes à nossa pobre realidade brasileira!". Isto é válido? Não. Esta mentalidade que faz com que a maioria dos compradores nacionais de Armas de Fogo as adquiram e, ato contínuo, guardem-nas na gaveta, apenas exibindo-as para amigos e/ou parentes, tem que acabar. Isto certamente ocorre porque a maioria desses itens adquiridos em nosso país é, em realidade, um demonstrativo claro da escalada da violência e seria mesmo o caso de perguntar-se aos antigos legisladores se, com toda esta restrição, vivemos hoje tempos menos turbulentos no Brasil?
É evidente que não. A própria falência da tranquilidade social no Brasil mostra que o caminho trilhado por antigos imbecis só trouxe maior violência e atrevimento por parte da marginalia, redundante e paradoxalmente hoje existindo grande quantidade de armas em gavetas brasileiras, em mãos não habilitadas, as quais acabam na posse de bandidos. Este ridículo círculo vicioso "aquisição-gaveta-mãos-não-treinadas-bandidos" termina fatalmente colocando em muito maior perigo a vida dos policiais, da sociedade honesta e dos próprios legisladores, sempre tão preocupados em cercear os direitos alheios, decididamente esquecendo que eles também tornam-se alvos, talvez até mais "saborosos", para estes mesmos bandidos, aos quais cidadãos normais já têm pouco o que oferecer.
Embora isto possa parecer apenas um bonito jogo de palavras, a lógica ideia contida no que foi dito possui um grande culpado: o descaso do povo brasileiro para com leis formuladas estupidamente, sendo aquelas relativas a Armas de Fogo apenas mínimos exemplos. Mas, não se muda o que está feito da noite para o dia, por mais evidente que seja a falta de lógica num país como o Brasil e temos que, então, buscar uma temporária solução para suprir os malefícios advindos desse estado de coisas.
A nosso ver, a maioria das armas atualmente em poder da sociedade brasileira sofre do curioso e descabido "mal da gaveta", urgindo interrompermos o incrível círculo vicioso pelo qual elas:
terminam em poder de bandidos;
não servem para funcionar como apoio informativo e nem promocional, de vez que o número de pessoas que com elas treina ou pratica Esportes do Tiro é mínimo; e
estando inertes e em mãos despreparadas, serão cada vez mais "saborosos petiscos" para criminosos, os quais, forçosamente, têm de encará-las como instrumentos importantes de sua atividade.
Nossa proposta é que todo aquele que adquira uma nova arma comece a procurar habilitar-se e treinar o mais frequentemente possível, frequentando cursos e clubes; que todo apreciador que porventura atue nos meios de comunicação busque sempre sua divulgação em bases técnicas e sérias; que todo esportista do Tiro tente, pelo menos, formar mais um colega; que os comerciantes de armas, principalmente os das grandes cidades brasileiras, continuem batalhando pela liberação da venda de usadas em suas lojas; que as autoridades procurem eliminar desnecessária burocracia para a legalização das mesmas; que legisladores despertem, definitivamente, para o fato de que fazem parte da sociedade; enfim, que todos aqueles que tenham boas ideias no tocante a este assunto não causem a elas o mesmo mal que afeta as Armas de Fogo no Brasil: o Mal da Gaveta.
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