Editorial
Polícias X Goleiros
Assim como acontece com os “guarda-metas”, antigamente conhecidos por goal keepers e hoje chamados de goleiros, na profissão de policial há pouco lugar para erros, pois sempre haverá alguém, a posteriori, a “meter o pau” na atuação desses profissionais, principalmente os que ignoram os meandros técnicos que norteiam o trabalho deles.
Assim, é nosso dever lembrar, primeiramente, de uma quadrinha muito válida em horas como essas: “das coisas que me recordo há uma que me entristece: quando acerto ninguém lembra, quando erro ninguém esquece”.
Onde ficaram os inúmeros acertos da polícia? Desse modo, logo após o início do incidente envolvendo os jovens de Santo André, grande São Paulo, e praticamente em concomitância a um enfrentamento entre policiais aqui neste estado, em função de sempre negada entrevista com o governador visando necessárias melhorias salariais, surgiram os comentadores de plantão tentando explicar, com nomenclatura errônea e absoluto despreparo quanto aos assuntos em pauta, sequências nas quais os menos citados foram, efetivamente, os responsáveis pela tragédia final de uma situação de reféns.
Ninguém duvide que ingerências externas baseadas numa tentativa de “ficar bem” acabaram por desalinhar o trem da inteligência, dando lugar a conjecturas que não passariam pelo mínimo exercício da lógica. A embasar tal assertiva, observem-se algumas considerações.
O governo de São Paulo, incapaz de reconhecer situações nas quais a alternativa letal deve ser considerada, sempre acha estar fazendo o melhor quando pede, ou ordena, que uma ação dessas se prolongue até a exaustão, ou que deixe de ser notícia, e torce para que a opinião pública não venha a crucificá-lo no dia seguinte. Foi assim no episódio do Carandiru e em tantos outros onde vilões politicamente incorretos foram eleitos da noite para o dia.
A imprensa televisiva, leiga em segurança, que no afã de garantir audiência se intromete em assuntos que não domina, como por exemplo bancar negociadores, faz de tudo para cercar o local dos acontecimentos, garantindo transmissões ao vivo que acabam por fornecer ao tomador de reféns um quadro completo da disposição tática dos grupos policiais especiais, os quais rezam para que o bandido não esteja assistindo tais imagens e, consequentemente, não possa reforçar suas defesas ou alterar seus procedimentos.
Alguns representantes dos chamados direitos humanos que, até agora, têm voltado seus esforços para a proteção de meliantes, esquecendo que as vítimas também são humanas e, em nosso entender, muito mais humanas do que os perpetradores de tais atos contra a sociedade.
É muito fácil criticar a polícia enquanto os verdadeiros responsáveis manipulam tudo desde as sombras. O GATE da PMESP é considerado uma das tropas mais bem treinadas para lidar com esse tipo de ocorrência, e cremos que, com a sempre esperada e nunca dada “luz verde”, teria muito melhores condições de trabalho. Isso sem citar o baixo salário das polícias e os esforços que fazem os valorosos defensores da lei em buscar, na maioria das vezes com recursos próprios, treinamento que garanta sempre um melhor desempenho, disso somos testemunhas.
Então, entre o praticamente obrigatório emprego de munição não letal em uma situação de letalidade, a falta de verbas para manutenção de equipamentos que garantam a importante coleta de dados, como microcâmeras, dispositivos de visão noturna e térmica, e o medo do posterior julgamento por atos considerados impensados, cá estamos nós diante de mais um divisor de águas em território nacional, onde omissões são vistas como o certo a ser feito em função de comprometimentos político-sociais.
Enquanto isso, a despreparada imprensa leiga nos brinda com erros e confusões técnicas, termos equivocados, deduções precipitadas e conclusões definitivas de profissionais que nunca enfrentaram situações desse tipo. Chega-se ao absurdo de informações desencontradas, interpretações incorretas e cobertura que mais confunde do que esclarece.
E o que dizer sobre o uso equivocado da palavra sequestro? O que ocorreu foi uma situação com reféns em cárcere privado, onde ninguém foi removido de um local para outro, o que caracterizaria um sequestro. Não houve sequestrador, e sim um tomador de reféns, muitas vezes tratado como vítima, quando na realidade se tratava de um agressor responsável por atos de extrema violência.
Ainda bem que, desta vez, não se colocou a culpa em um objeto inanimado. E não se enganem, o agressor teria cometido os mesmos atos utilizando qualquer outro instrumento.
Acorda, São Paulo. Acorda, Brasil. Já é passado o momento de mudanças e pouco ou nada é feito.
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