Editorial
CAÇA REGULAMENTADA: A ÚLTIMA ALTERNATIVA!
"O resultado desastroso que colhemos em matéria de destruição ambiental, depois de 497 anos de legislações restritivas, e que não leva em conta nem a natureza humana nem a realidade do País, mostra que há algo de fundamentalmente errado na maneira como nossas autoridades e ecologistas têm encarado a questão. Se quisermos a floresta em pé, temos que atribuir-lhe um valor econômico maior do que o que ela teria transformada em carvão. E no mundo inteiro, mais do que com o turismo ecológico, atividade limitada pela própria natureza, foi com a organização das indústrias da caça e da pesca esportivas que se resolveu esse problema.
O homo-sapiens seria definido com mais precisão, em toda a sua dimensão, especialmente nos dias de hoje, se fosse chamado o homo-economicus. Tudo o que fazemos e toda a organização da sociedade moderna tem, goste-se ou não disso, uma orientação econômica. Assim, se quisermos preservar nossas florestas e ecossistemas ainda inteiros, é preciso, antes de tudo, tornar isso economicamente interessante. Só assim a sociedade tomará, espontaneamente, em suas mãos, a tarefa de zelar pela preservação que o Estado... não tem condições de assumir.
Existem entre 16 e 20 milhões de caçadores nos EUA, dependendo do critério para a contagem. A venda de licença de Caça foi em torno de 16 milhões por ano ao longo da última década. Dezoito por cento da população masculina acima de 16 anos define-se como adepta do esporte. O número de mulheres caçadoras cresceu 33% nos últimos cinco anos, chegando a 12% do total de adeptos... O National Survey on Hunting estimou que os caçadores gastaram em licenças e outras despesas ligadas à prática de seu esporte cerca de US$ 10,1 bilhões em 1985.
A venda anual de outras licenças de Caça nos EUA gera aproximadamente US$ 400 milhões. Como é o dinheiro mais rigorosamente destinado à conservação, hoje as licenças são vendidas tanto para caçadores quanto para não-caçadores que vêem nesse mecanismo a forma mais direta de contribuir para programas de preservação.
Nenhum guarda do governo fiscalizará a natureza e zelará por sua preservação com mais empenho e competência do que caçadores e pescadores esportivos e as pessoas que dependem desse negócio para viver e sustentar sua família. Vários governos europeus, entre eles o da França, reconhecem isso a tal ponto que os clubes de Caça de cada distrito do país são incumbidos, com poder de polícia, de fiscalizar até o uso de defensivos químicos pelos agricultores.
...Podemos ingressar na trilha testada e aprovada em todos os países do mundo, com a única exceção do Brasil, ou esperar pelo final da história que estamos assistindo há 496 anos. O que já está delineado como destino final de nossas matas e ecossistemas que ainda sobreviveram a estes quase cinco séculos de depredação com certeza acontecerá antes que discursos e campanhas, por mais bem-intencionados que sejam, possam mudar a natureza humana."
Trechos de extenso artigo de Fernão Lara Mesquita no "Caderno 2" do jornal "O Estado de S. Paulo", edição de domingo, 27/04/1997.
Índice
Índice da Edição
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