Editorial
Quentin Tarantino & Machado de Assis ou resgate & respeito.
No dia dezoito, uma sexta-feira deste janeiro, estreou em cinemas daqui Django Livre (Unchained Django EUA, 2012). Filme de Velho Oeste, assinado por Quentin Tarantino, diretor, produtor, roteirista e ator de cinema, cujas narrativas extravagantes e não lineares são dele marcas registradas.
Embora carregue algumas falhas cronológicas, relacionando as armas ao período supostamente retratado, honestamente aplacadas pela liberdade poética, o filme traz algumas coisas de muita, muita importância pra todos nós. A atuação de Christoph Waltz, com certeza, é uma delas.
Mas, a bendizer por aqui, esse filme nos traz resgate. Tarantino, aliás, é mestre em resgate. Busca, por exemplo, ator que anda sumido. Resgatou John Travolta, em Tempo de Violência (Pulp Fiction - EUA, 1994). Também David Carradine, em Kill Bill (EUA, 2003). Em Django Livre, o diretor resgata Franco Nero que é minha triste opinião não vem se mantendo exatamente popular nos últimos anos. Enfim, resgata figuras que vinham injustamente curtindo, admitido ou negado, certo ostracismo.
Para além de um dos atores, em Django Livre o resgate "tarantínico" pousa especialmente no título e no tema musical. Quarenta e seis anos atrás, o diretor Sergio Corbucci (1927-1990) filmou o bom e velho Django (Itália, 1966). Quebrador de paradigmas, o filme, cujo personagem principal é interpretado justamente por Franco Nero, é todo envolvido e avolumado pela música Django Thema (1966), de autoria de Luis Enríquez Bacalov. Resgate, portanto, do bom e modestamente remunerado cinema italiano dos anos sessenta, e da boa e nada modesta música de mesma época e origem.
Vejamos, então: na segunda década do século XXI, um filme de Velho Oeste, com oxigenação de velhas tônicas e resgates de quase cinquenta anos? É isso? É! É isso mesmo! E muito bom que seja assim. Em minha visão, isso é algo traduzível em respeito. Respeito aos pioneiros, aos mais velhos e principalmente respeito às raízes e ao passado. Um cinéfilo contumaz, Tarantino aprendeu bastante com velhas raposas, como Sam Peckinpah (1925-1984) e Sergio Leone (1929-1989). E, sabendo exatamente de onde veio, não esquece suas bases e origens. Ao contrário, as homenageia, resgata e brilhantemente compartilha.
Confesso que me frustra ter que garimpar resgates somente na vida ficcional dos filmes. Não me refiro aqui a outra coisa que não seja o respeito. Tudo isso pra dizer a você sobre o meu descontentamento com as tentativas sorrateiras e desrespeitosas de mexer novamente no direito de ter e manter armas de fogo no Brasil.
Quase todos nós lemos jornal, assistimos tevê, escutamos rádio, e, claro, navegamos na internet. Indignados, ficamos sabendo de tentativas de certos senhores, como Sen. Cristovam Buarque, Min. José Eduardo Cardoso e o Sen. Sérgio Souza, vindo à baila com falácias, contradições e inversões de valores, renovadas e insistentes vezes, propondo novos referendos, equiparando espingardas de sitiantes a fuzis de assalto de traficantes, buscando nos convencer, a qualquer custo (leia-se, QUALQUER CUSTO!), que a raiz de todos os males do país está nas armas e que nós erramos, em outubro de 2005, ao elevarmos o vitorioso NÃO ao patamar de arredondados sessenta e quatro por cento dos votos válidos. E que fique muito claro e refrescado, pra você e pra mim, que em nenhum estado da federação o resultado foi favorável aos antiarmas. Questão de unanimidade patente.
No meu tempo de escola, quem era reprovado, além de tomar uma sonora bronca em casa (com direito às pedagógicas palmadas), abaixava a cabeça, era simples e realmente reprovado. Hoje, quem é reprovado vira de súbito uma “pobre vítima”. Recebe dos “pais eternos babás” um apoio incondicional contra os “megeros professores reprovadores”, não se acanha em entrar com recursos, via “pais babás”, contra a igualmente “megera escola reprovadora”, garantindo a passagem de ano de tão pobre, tão inocente e tão “injustiçada criaturinha”. Não é assim que funciona hoje? Que eu saiba, é!
Pois bem, precisamos dum importante resgate. Resgate que livre da ruína a verdade e a justiça. Que traga de volta o respeito à educação e a reverência aos pais, aos professores, ao passado. Que tire do esquecimento as distinções, tão claras, entre perdedores e ganhadores de um referendo.
Joaquim Maria Machado de Assis, que você provavelmente conhece pela obra, ou dele muito ouviu falar, encabeça a lista dos hoje havidos como os seis maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Cronista, jornalista, crítico literário, poeta, contista, romancista e dramaturgo, Machado de Assis nasce em 1839. Filho de operário, mulato, desde muito cedo órfão de mãe, criado pela madrasta, também mulata, que o assume, o educa e matricula no ensino público, única escola formal que frequenta o tão brilhante autodidata. Vivendo até 1908, nos deixa uma produção literária incrível. Nela, ínsito, um conjunto significativo de recados, recomendações e alertas políticos de muito bom senso, que nunca estiveram tão atuais.
Pedindo licença pra tomar de um de seus textos o mote, não me recusando nem me permitindo dizer que dele as semelhanças com nossa realidade sejam meras coincidências, vou em frente por aqui. O texto se intitula O Dicionário e integra Páginas Recolhidas (Machado de Assis - W.M. Jackson Inc. Editores - 1946).
Conta o texto que um certo Bernardino, toneleiro artesão, achava que o mundo fosse um barril de marmelada. Sedento de poder, toma o rei na porrada e temos um popular no trono.
Extinguindo a velha profissão, Bernardino acaba com a produção de barris. Muda o próprio nome pra Bernardão e distribui títulos e mais títulos pra se manter no poder. Esquecendo sua origem humilde, se faz artificial e falsamente descendente de nobres. Passa a buscar então o casamento com uma moça bonita e letrada, rica e tradicional, de quem não por acaso se enamora.
Ocorre que a recíproca não é verdadeira. E dinheiro nenhum basta pra conseguir tal moça, que não engole falsos novos nobres, pois vazios, sem letras, sem livros, sem poesia. Moça que se diz pronta a noivar sim, mas com aquele que lhe desse um poema muito bom.
Bernardão faz então um concurso de poemas, perdendo para um moço culto que, coincidentemente, é da moça o grande amor. Tirano, Bernardão anula o concurso, muda as regras, fazendo outro novo. O moço amado vence outra vez, mesmo sob as tais novidades. Outra anulação e novas regras. Terceiro concurso, terceira vitória do poeta amado.
Fulo da vida, Bernardão manda ministros criarem um “remédio enérgico”, porque, se não ganha a mão da moça, cabeças prontamente caem. E esses tais vêm com O Dicionário, a nova língua, aquilo que intitula o texto ora relatado. São recolhidos os outros dicionários circunstantes, todos eles. O novo vocabulário, que por certo daria vitória ao tirano, vira a norma nova.
Decretado o vocabulário, abre-se o concurso definitivo. E o melhor dos poemas, de novo, é do moço culto, o amado da bela e tradicional moça letrada. Bernardão, desesperado, num derradeiro arroubo de tirania, manda cortar as mãos dos ministros. Mas depois, sem mais poder fazer, finalmente cede.
Tomara vencêssemos o “Bernardão” por aqui. E, vencido, tomara “Bernardão” abaixasse a cabeça, cedesse à verdade e saísse de cena. Enfim, sigamos em frente. Fiquemos atentos às notícias do MVB Movimento Viva Brasil, e assim desejo tenhamos um feliz 2013! s/m.
Caio Wolff Bava
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